Um Cascalense a viver o tempo do Covid-19

Também nós jornalistas, não somos diferentes. E por isso as nossas casas tornaram-se a redacção. Telefonemas, emails, a procura pela informação que vos poderá ser mais útil.

Mas também sentir o pulsar, o sentimento dos nossos leitores é muito importante para nós.

Alguns leitores vem desde há algum tempo mantendo canais de comunicação com a nossa redacção e agradecemos por isso. É por vós que existimos.

Como tal, contactámos um leitor por email para efectuar uma entrevista e percebermos entre todos como se está a viver.

João Ferreira, 48 anos, casado, dois filhos, comerciante em Alcabideche.

PC – Olá João, em primeiro lugar, muito obrigado por nos ceder esta entrevista. Vamos começar pelo óbvio. Como está a viver este tempo de quarentena?

João Ferreira – Bom dia, quero começar por agradecer pela entrevista e desejar a todos muita Força e muita Esperança.

Os tempos estão conturbados e não existe falta de análises ocas e “achismos”. Por isso tentarei não ir por aí. Mantenho-me sempre atento ao que me rodeia e no principio da semana anterior percebi que isto ia ser ais difícil do que pensávamos. Por opção própria, coloquei os meus filhos de quarentena na quinta-feira passada ou seja dois dias antes de as escolas fecharem. Pareceu-me óbvio que vinha uma grande crise a caminho, pelo “comportamento típico” que as pessoas começam a ter nos supermercados, mas também pelos emails em catadupa de fornecedores, vários deles espanhóis, a fecharem portas. O meu negócio já fechou portas a semana passada por falta de clientes e de matéria prima.

PC – O comportamento nos supermercados. O papel higiénico. O salve-se quem puder.

João Ferreira – É um comportamento de medo, de receio do que realmente aí vem. Parece-me que a limitação do número de pessoas por metro quadrado nas superfícies comerciais, acabou por trazer alguma organização e alguma calma no comportamento das pessoas. O fenómeno papel higiénico deve ter uma explicação do comportamento de massas mas talvez um sociólogo saiba explicar melhor isso. O facto é que não é um problema nosso. Tenho família nos Estados Unidos, França e Alemanha e o mesmo fenómeno do papel higiénico aconteceu por lá.

PC – E como acha que Cascais está a reagir?

João Ferreira – Em algumas coisas não seremos muito diferente dos outros. Mas penso que globalmente estamos num patamar francamente positivo. Nota-se que as pessoas estão a acatar os conselhos da DGS e a ficarem em casa. Os supermercados que conheço estão relativamente calmos, dadas as circunstâncias. A Câmara de Cascais parece-me estar a liderar de forma exemplar este processo. Claro que se pode sempre fazer mais, mas só quem está com a “batata quente” na mão é que conhece a “dor” que provoca, tomar decisões que influenciam vidas. Em suma, e pelas áreas que conheço melhor, Alcabideche, Cobre, Alvide, Fontainhas, Amoreira e Birre, a resposta por parte dos cidadãos está a ser muito satisfatória.

PC – E dentro das suas quatro paredes?

João Ferreira – Duvido que alguém venha dizer que é fácil. ontem tive um dia tremendo. O meu Pai tem 90 anos, insiste em viver sozinho em Lisboa e ontem pregou-me um enorme susto quando durante três não me atendeu o telefone. Após mais de 30 chamadas, já estava a vestir-me para ir para casa dele, quando lá me atende o telefone. Tinha estado a “bater uma soneca” e tirou o som do telemóvel. Foi um sufoco.

À noite, depois de estarmos deitados, o meu filho de 8 anos começou a chorar na cama. Corri para ver o que se passava e ele diz-me que estava cheio de medo que a mamã e o papá apanhassem o coronavírus, que morrêssemos e ele ficasse sozinho com a irmã ainda bastante nova. Nunca é fácil para um Pai lidar com isto. Também eu tenho medo. Mas tive de o acalmar, de lhe dar esperança e prometer que nada ia acontecer. Agora, tenho de tudo fazer para cumprir a minha promessa ao meu filho. De seguida, estava eu sozinho na sala com a netflix e as lágrimas a saltitar. Mas hoje, terça-feira é um novo dia e vamos vencer isto.

PC –  João que mensagem quer deixar aos Cascalenses que leiam esta entrevista?

João Ferreira – Tudo o que possa dizer, já está farto de ser dito mas nunca será demais de dizer novamente. Fiquem em casa, fiquem em casa, fiquem em casa.

Mas neste momento os nossos princípios, os nossos modos de vida estão a ser colocados à prova. Tem existido por esse mundo fora iniciativas populares que eu pensei já não serem possíveis de existir e isso dá muita esperança. Porque estamos todos juntos nisto. Estamos todos no mesmo barco.

Quero deixar uma mensagem de muita esperança a todos os leitores e dado que este é um espaço multimédia, dedicar a todos os Cascalenses e não só, uma música que a mim enche-me sempre de Esperança. Amor a Portugal, por Dulce Pontes.

PC – Assim faremos João, obrigado e… fique em casa!