Evitar a Gentrificação de Cascais

Nos últimos anos tenho defendido que a arquitectura e o desenho dos núcleos urbanos têm um papel fundamental no cruzamento entre a preservação da memória, da tradição, mas também da sua sustentabilidade e na criação de novos pólos de atracção.

Assim, devemos considerar que quer a reabilitação urbana, quer a regeneração das dinâmicas locais se devem assumir como uma prioridade de qualquer governação autárquica como referi em textos anteriores publicados aqui no PortalCascais.

Essa assunção deve ter por base um triângulo fundamental na conservação e valorização do património edificado e social, constituído pelas fases de monitorização, intervenção e dinamização.

A esta acção sobre os núcleos urbanos não pode ser alheio um conjunto de outras opções políticas no âmbito da gestão e coesão territorial.

Desde logo a capacidade de aumentar a atractividade do território, impulsionando a fixação de mais jovens em Cascais. Para concorrer para esse objectivo importa apostar não só na atracção de jovens, mas sobretudo na fixação de jovens que nasceram, cresceram e que desejam desenvolver o seu projecto de vida no seu concelho, com a respectiva proximidade familiar e no seio da comunidade que os formou, informalmente, enquanto cidadãos.

É certo que o nosso concelho desde sempre se assumiu como um local de eleição no que concerne à confluência de populações com características bem distintas, de origens e culturas diversificadas que enriqueceram o nosso património. E é perante esse reconhecimento genético, de uma terra de Reis e Pescadores, que não podemos projectar o futuro do nosso território, continuando a ser esse local de confluência, sem que primeiro seja possível salvaguardar aquela que é a sua essência.

Por essa razão olho com preocupação para toda e qualquer reabilitação urbana que não tenha por base um justo equilíbrio entre o passado e o futuro. E esse equilíbrio só se conseguirá evitando a saída de jovens para os concelhos limítrofes, onde a oferta habitacional acaba por ser substancialmente mais barata, configurando não só o abandono daquilo que é a essência da preservação do património social de um concelho rico na sua diversidade, mas sobretudo promovendo a descaracterização da população e das dinâmicas locais.

Preocupa-me a gentrificação de Cascais e apesar desse fenómeno, nos anos 90 ter sido considerado como algo positivo, resultante das alterações das dinâmicas, composições e paradigmas locais, hoje é reconhecido como sendo profundamente penalizador e promotor da exclusão de camadas sociais mais desfavorecidas, fomentando assim a descaracterização do território. Projectos em curso como o do Jumbo, da Marina e da Praça de Touros são apenas alguns exemplos que concorrem para a gentrificação de Cascais.

Na esperança que assim não seja e para que se possa igualmente trabalhar e desenvolver projectos que permitam ir equilibrando a oferta, fica a proposta de criação de um programa habitacional jovem, especificamente orientado para os nossos munícipes, que seja desenvolvido não pela massificação do património edificado mas a partir da sua reabilitação, promovendo naturalmente a regeneração dos nossos núcleos urbanos e a sugestão para que toda e qualquer intervenção tenha um profundo respeito pelas identidades locais, reconhecendo os territórios onde é necessário intervir de modo a mudar o paradigma e em simultâneo salvaguardar as situações onde o factor principal deverá ser a sua preservação.

Luís Miguel Reis